Transcrição de Narciso G. Dias, em 19.07.2010
Quem levou 130 crianças de Hamelim e que tragédia aconteceu? Novas considerações sobre esse mistério medieval.
Bem no interior da Baixa Saxônia, ao lado do serpenteante rio Weser, fica a bela cidade de Hamelim. Passeando a pé nas ruas calçadas de pedra encontrei uma ruela chamada Bungelosen (Bungelosen strasse) ou rua onde é proibido tocar tambor. Ao perguntar soube que ali não só não se toca tambor como há sete séculos nenhuma música é ouvida. Na verdade esse é o caminho que, segundo a lenda, 130 crianças da cidade seguiram ao desaparecer.
Tal como milhões de jovens, ouvi, sentado no colo de minha mãe, a estória do flautista: Em 1284 Hamelim foi infestada por uma praga de rato. Um estranho forasteiro apareceu vestido com uma roupa colorida e, por determinada quantia, prometeu livrar a cidade daqueles animais. Então tocou sua flauta e os ratos o seguiram até o rio Weser, onde se afogaram. Depois os ingratos habitantes da cidade se esquivaram de pagar. A vingança foi terrível. Tocou novamente a flauta e 130 crianças o seguiram através do portão oriental da cidade amuralhada até um morro chamado Koppen, onde a terra se abriu e fechou sobre elas.
Foi assim que ouvi, em primeira vez, a lenda que se espalhou no mundo, se implantou em dezenas de línguas e serviu de inspiração a inúmeros poetas, romancistas, dramaturgos e compositores. Dos mais famosos contos populares do mundo esse foi encarado como conto moral (pagar o que se deve) e político-alegórico (cuidado com os líderes pavoneados). E talvez seja o misterioso e infeliz final que dá à estória certo impacto. Será porque simboliza algum acontecimento histórico?
Em Hamelim, finalmente, pude satisfazer a curiosidade sobre o mistério. Numa tabuleta de madeira, na ruela Bungelosen, há uma inscrição:
No ano 1284, dia de João e de Paulo, 26 de junho, 130 crianças nascidas em Hamelim
foram enganadas por um flautista vestido de todas as cores e desapareceram...
A inscrição data do início do século 17. Algo triste, evidentemente, acontecera em Hamelim em 26 de junho de 1284 mas o enigma persistia. As crianças aonde foram e por quê? Quem as levou? E os ratos?
No museu de Hamelim, um edifício do século 16 repleto de informação sobre a extraordinária história da cidade, olhei, extasiado, 350 livros que registraram a lenda e analisaram o mistério. Sabemos que o flautista provavelmente existiu graças a um fragmento de manuscrito redigido no século 15. Descreve um homem elegante, duns 30 anos, que causava admiração quando tocava a flauta de prata. Todas as crianças que o ouviam tocar o seguiam a fora da cidade. Uma senhora, frau von Lude, então adolescente, testemunhou a partida das crianças. Os pais, aflitos, as procuraram em todo lado e nunca encontraram.
Outro texto registra que em volta de 1300 o povo de Hamelim mandou fazer um nicho envidraçado in memoriam na igreja junto ao mercado. Talvez destruído no século 17, consta que havia nele inscrita a informação de que as crianças sobreviveram a todas as formas de perigo até Koppen e depois desapareceram. Isso dá a entender algo mais que a versão dos habitantes da cidade (a pequena excursão a um lugar subterrâneo na encosta dum morro). Um cronista escreveu que o nicho mostrava uma velha imagem dum homem vestido com roupa vivamente colorida num grupo de criança. Nada de flauta.
Jovem ou velho? Com flauta? E como os ratos entraram na estória? É fácil descobrir quando isso aconteceu. Examinando a reprodução duma aquarela de 1592, vi, em primeiro plano, o flautista (um ancião robusto, de bigode, com aspecto afável) usando roupa multicolorida. Também está representado em segundo plano, em duas atitudes. Numa, conduz as crianças morro acima, onde se abre um buraco gigante. Noutra está sentado num barco no rio Weser, tocando flauta e expulsando os ratos de Hamelim à água. No simbolismo medieval os ratos representam almas humanas. Estaria a aquarela mostrando as almas das 130 crianças levadas a força? E nos dizer, alegoricamente, que as crianças se afogaram?
Pra estudar o enigma tive de excluir os ratos. Descobri que praga assim era vulgar na Europa medieval, tal como as estórias de miraculosos caça-ratos. Poderá algum viajante inspirado ter enviado ratos à morte no rio Weser? Não é impossível.
Ou poderá os ter atraído com uma flauta? Os novos conhecimentos dizem que sim. Os ratos podem ser levados à loucura com som de alta freqüência. O conservador do museu de Hamelim, de 78 anos, Ernst Spanuth, cujo pai dedicou grande parte da vida à história de Hamelim, me mostrou um apito metálico utilizado por um inglês caçador de rato. Dizia ter usado o som agudo pra levar milhares de ratos às ratoeiras.
Assim o flautista pode ter sido um caça-rato que acabou parecendo, aos circunstantes, um feiticeiro. Então os cidadãos, supersticiosos, tiveram relutância em pagar a um mensageiro diabólico. Apesar de nos registros primitivos nada relacionar tal homem ao desaparecimento das crianças a tradição deve ter conservado viva a recordação e, quando as crianças sumiram, foi apontado como o vilão pelas gerações posteriores. É assim que nasce a tradição. Os acontecimentos se tornam confusos e interligados e acabam originando uma lenda.
No século 17 os estudiosos começaram a debater uma questão que permanecera 300 anos sem resposta: O que aconteceu às crianças de Hamelim? Alguns textos medievais induziram os alemães a se deslocarem a leste, até território eslavo: A região é excelente, rica em carne, mel, ave doméstica e farinha. Por isso vinde a cá, saxões e francônios.
— Poderia ser? — Perguntei a Spanuth.
— Sim. Os estudiosos podem discordar sobre pormenores mas são unânimes acerca duma coisa: As crianças foram a leste.
Leste era uma palavra que continha aliciante promessa nas superpovoadas cidades alemãs no século 13. Os governantes eslavos e húngaros acolhiam, com prazer, os colonos alemães, que poderiam ajudar a resistir aos tártaros que saquearam a Rússia. Os humildes alemães encontravam ali maior liberdade. E assim vagas e vagas de colonos eram apoiadas por príncipes e nobres, que viam uma vantagem comercial nas recentes cidades alemãs fronteiriças. Era comum haver agentes recrutados ali.
Comecei a perceber a natureza provável da personagem. Foi quem persuadiu 130 jovens de Hamelim a tentar a sorte na terra prometida, a leste.
O dia 26 de junho de 1284 foi um feriado religioso em Hamelim. Com roupa vistosa, tocando flauta, um astuto recrutador poderia ir, calmamente, cumprir sua missão. Os que reuniu não seriam as criancinhas da imaginação popular mas crianças da cidade, provavelmente adolescentes aborrecidos, desempregados, ansiosos por aventura.
Por que uma lenda assim em Hamelim e em nenhum outro lugar? Parecia evidente que algo terrível acontecera às crianças.
Pra descobrir o que seria, fui de carro até uma aldeia afastada, à casa de Hans Dobbertin, de 58 anos, mestre-escola aposentado, que dedicou a maior parte da vida de adulto a investigar o caso das crianças perdidas de Hamelim e está 100% certo do que aconteceu:
Atrás de cada palavra numa lenda há algo de lógica. A lenda fala duma tragédia. Houve uma tragédia. Não perto de Hamelim. Mais longe. Tenho uma boa razão circunstancial pra crer que as crianças foram a nordeste e apanharam um navio, que afundou na proximidade duma aldeia costeira da Pomerânia, Kopahn, situada na atual Polônia. É esse o significado das tais inscrições medievais que dizem que as crianças se perderam em Koppen. O povo de Hamelim, mais tarde, confundiu o nome dessa aldeia distante com o dum morro ali perto.
As pistas de Dobbertin foram colhidas de documentos muito antigos, que falam das andanças dum tal conde Nicholas von Spiegelberg, colonizador alemão que tinha ligações perto de Hamelim. Spiegelberg foi visto em última vez no porto báltico alemão de Stettin, em 8 de julho de 1284, apenas 12 dias após das crianças desaparecerem. Stettin, a 400km de Hamelim e a cerca de 12 dias de viagem, e Kopahn eram portos ao longo da rota seguida pelos emigrantes alemães que se estabeleciam no Báltico.
Ainda mais convincente é a prova de que o conde Spiegelberg viajou entre a região de Hamelim e a Pomerânia nos anos anteriores a 1284. Seus dois irmãos, também colonos, regressaram pra se fixar próximo a Hamelim. Spiegelberg desapareceu do registro ao mesmo tempo que as crianças. Dobbertin concluiu que o conde morreu com elas. Perguntei:
— Nicholas von Spiegelberg seria o flautista?
— Faz sentido. Seria a figura idosa das primitivas representações ilustradas. Estaria com a roupa vistosa dum nobre alemão. Pra chamar atenção teria contratado músicos. A memória do povo logo fundiria vários homens num só.
Alguns estudiosos discordam da teoria de Dobbertin mas, até que alguém arranje um álibi convincente, Spiegelberg continuará sendo um importante suspeito. Embora o processo sobre o estranho caso do flautista possa nunca ser realmente encerrado, ao menos já não se situa num vácuo da história.
Voltando a Hamelim me juntei a centenas de visitantes que passeavam. A lenda traz, todos os anos, 200 mil turistas e 6 milhões de marcos alemães à cidade. Os únicos roedores visíveis, hoje, são feitos de doce e de chocolate. Num restaurante local é servido rabo-de-rato flambê (fatia de porco flambada) e uma aguardente chamada mata-rato.
Como se aproximava o meio-dia, fui até a praça do mercado. O drama do flautista seria representado, como em todos os domingos de verão, por um elenco de quase 100 figurantes amadores, com as crianças fazendo papel de rato. No fim da peça as crianças seguiam um homem de traje berrante tocando oboé, nas ruas da cidade. Os pais, na assistência, tentavam chamar de volta seus filhos hipnotizados.
Mais tarde dei o último passeio na ruela Bungelosen e me despedi. Já sabia o suficiente. As crianças desaparecidas de Hamelim em 1284 nunca serão esquecidas enquanto o homem precisar de história pra contar. Seu monumento comemorativo é mais duradouro que o mármore. Na terra sempre viva da lenda essas crianças ainda seguem o flautista, caminhando a um horizonte desconhecido.
Seleções do Reader’s Digest, publicado em outubro de 1982
segunda-feira, 19 de julho de 2010
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