Olívia é uma dita senhora, casada com Alfredo, mãe de dois filhos e trabalha de sol a sol. De dia presta serviços à Prefeitura do pequeno município e após o expediente, pega carona no ônibus escolar e se dirige ao seu lar, num povoado próximo à sede da cidade onde desempenha o papel de secretária, com minguados conhecimentos do ofício, mas o patrão não exige mais, pois também não oferece condições de capacitação. É um pagar pouco, exigir pouco e um finge que trabalha e o outro finge que está tudo às mil maravilhas.
Chegando ao trabalho a secretária sabe que ali tem um ambiente adequado para deixar sair do seu peito os acontecimentos diários e dar vazão a seu descontentamento da vida. É uma espécie de dois mundos. Um do trabalho, onde é paga para aplicar sua força de prestação de serviços, é respeitada como pessoa pelos colegas, o que compensa o desrespeito de como é tratada como servidora, tendo direitos reduzidos, mas também tem deveres qualitativa e quantitativamente reduzidos na mesma proporção. O que lhe fixou na mente uma tranqüila condição de que está tudo muito bom...
No mundo do lar, Olívia não entende como pode um ser humano não estar embevecido com as palavras do Pastor Fulano, um santo, um homem que mostra o caminho da salvação e da felicidade...Porque é que as pessoas não querem enxergar que a única forma de encontrar a salvação é seguindo os caros conselhos de Fulano. Sim senhor, caro, pois dos oitocentos reais mensais que Olívia recebe, o sagrado dízimo de oitenta reais é pago como forma de repor financeiramente a obra do Santo Pastor, que faz daquela pequena importância o passaporte para uma vida cada dia melhor. Os setecentos e vinte reais remanescentes, são distribuídos de maneira adequada:
1) Quatrocentos reais para o armazém( que oferece produtos baratos, de origem nem sempre confiáveis mas remarcados com preços pelo menos o dobro do valor de compra, que logo transformam o comerciante em pontencial candidato a prefeito da pequena comunidade. O comerciante sempre consegue passar a idéia de que está prestando um favor ao comprador, com tantos impostos , taxas, serviços , transporte e principalmente os etecéteras e tal. Que mesmo pagando muito mais caro, a infeliz Olívia sempre sai com essa impressão de ainda dever um imenso favor ao fornecedor).
2) Oitenta reais para a energia elétrica (Olívia sempre imagina como a graça do Paastor Fulano é grande, é o mesmo valor da luz elétrica, o preço que paga pela luz da eterna felicidade de ser crente), água não se paga, pois a água não é tratada e vem de uma barragem construída pela prefeitura local ( não é de boa qualidade, mas em compensação é oferecido pela Prefeitura o tratamento para as doenças contraídas pelo uso da água, pago com os altos impostos recolhidos por Olívia, além das seqüelas que ficam por conta das epidemias que assolam o pequeno lugar decorrente da falta de tratamento da água, mas para que preocupar com isso).
3) Cinqüenta reais são separados religiosamente para atender às ofertas do Pastor Fulano. Uma vez foi adquirida uma gravata santificada e ungida pelo Pastor, pela módica quantia de oitenta reais...Uma pechincha...é objeto de valor incalculável, imagina a bondade desse homem santo...Podia vender por duzentos reais, uma vez que já compra as gravatas a um real, tem tanto trabalho para santificar o produto e poderia ganhar muito dinheiro vendendo por um valor muito maior. Mas o santo homem vende por um preço justo. Compra por um e vende apenas por oitenta...É assim que a humanidade devia ser...Pelo menos é o pensamento de Olívia. Outro dia esse homem santo colocou à venda cento e cinqüenta mil anéis santificados. Adquiridos na Vinte e Cinco de Março a dois reais e vendidos a cento e cinqüenta reais. Lógico que Olívia adquiriu o anel...Não se vai ao céu sem o anel...Isso é coisa que está escrita nos mandamentos de um bom crente, não há como contestar.... Frequentemente o bom crente, como Olívia tem que se ir até São Paulo para participar dos cultos do Pastor e para que se compre as novidades ali expostas na Santa Loja, que vão desde DVD’s, CD’s, fitinhas, pôsteres e uma série de quinquilharias, todas ungidas e santificadas pelo Santo Fulano. O Pastorque jamais remarca os produtos acima de cem vezes o preço de custo. Essas viagens são pagas em prestações mensais, que Olívia não pestaneja. Saiu o pagamento tem que pagar a passagem...Isso é religião.
A empresa de turismo que promove essas viagens santas combram um preço maior do que os ônibus convencionais, pois não oferecem nenhum conforto aos penitentes, além de serem irregulares para com os órgãos de fiscalização de traqnsporte, motivo que leva a fazerem longas paradas para despistar dos fiscais e noutras oportunidades são apreendidos pela fiscalização, levando os passageiros a mais uma longa penitência de mudar de condução com toda a sua bagagem até um lugar próximo ao ponto onde o veículo foi apreendido, até que o dono da empresa providencie novo meio de levar os romeiros até o seu destino. Mas todos sabem que isso é apenas uma provação e quanto maior for o sacrifício maior será a recompensa na outra vida. Pelo menos é o que a guia de turismo, que recebe trinta por cento do valor das passagens a título de prestação de serviços turísticos além do tratamento diferencial nos pontos de parada dos ônibus, onde dá preferência aos donos de lanchonetes que além de não cobrar da Guia de Turismo e dos motoristas, ainda recebem tratamento de condutores de boiada...Já os passageiros, tem o direito de ter incluído em suas despesas as mordomias dos tripulantes dos ônibus. Mas isso é apenas um detalhe, Olívia não perde tempo para pensar nessas coisinhas à toa.
4) Trinta reais é pago pelo leite das crianças. São dois filhos que tomam um litro de leite por dia. O leite é vendido pelo Sr. Zé de Lerinha. Que tem um rio de águas barrentas no fundo da propriedade e sempre lava o leite com essa água. O que transforma os vinte litros que obtém na propriedade em sessenta litros. Perguntaram a Zé de Lerinha, como ele consegue tirar sessenta litros de apenas três vacas velhas e maltratadas. Ele sempre responde que são os milagres de Deus e a fé que tem em Nossa Senhora da Aparecida, tira o chapéu, se benze...E tome água no leite...
5) Com esses cinco ítens já são seiscentos e quarenta reais, ainda restam cento e sessenta reais, do salário. O material escolar dos filhos é adquirido em doze pagamentos mensais de trinta reais. Olívia estava pensando um dia como se explicar que está escrito na Constituição Brasileira que é um direito de todo cidadão o acesso à educação. Ora como é que pode cobrar alguma coisa por um direito previsto na Constituição!!! ...Olívia não encontrou resposta...Mas isso é apenas preocupação à toa...Vamos em frente.
6) O aluguel da casa de Olívia é exatamente os cento e trinta reais que restaram. O pacotinho de dinheiro é entregue ao dono do acanhado imóvel onde Olívia descansa com o marido e os dois filhos. O imóvel foi adquirido por cinco mil reais, que o dono tinha na poupança, rendendo-lhe trinta reais, pago pelo banco, mensalmente. Já o imóvel lhe dá cento e trinta reais por mês (mais de quatro vezes o rendimento da poupança) além da valorização do imóvel...
Existem muitas dúvidas na cabeça de Olívia, uma é o porque muitas pessoas teimam em permanecer na religião católica que gasta tanto com fogos de artifícios para celebrar seus santos de devoção. Porque celebram santos em vez de celebrarem apenas o chefe de sua religião. São coisas que Olívia não consegue explicação. Porque ouvem um padre explicar como formar e manter uma família se ele não tem experiência de como é chefiar uma. Outra grande dúvida de Olívia é como tem tanta violência na bíblia e as pessoas acham ruim quando o mundo descamba numa violência menor nos dias de hoje. Pois na atualidade se matam apenas alguns milhares de pessoas e na bíblia já varreram da face da terra toda a vida existente, na época do dilúvio...Mas Olívia muda o pensamento para os pés no chão...ora e diz ora estou pensando besteira. Vou colocar um copo d’água em cima da televisão e o Pastor Fulano vai benzer para que ao tomar essa água eu fique purificada desses pensamentos sem nexo.
segunda-feira, 30 de agosto de 2010
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