
Nos idos de 1950,o Norte de Minas, sofreu com uma estiagem prolongada, onde vários habitantes e animais de zonas mais afastadas da sede de Monte Azul, morreram de sede, inanição ou de doenças e problemas de saúde causados pela seca. Os alimentos se tornaram bens escassos e acelerou o processo inflacionário, com a farinha, naqueles tempos um ítem básico na alimentação familiar e grande fonte de renda para os comerciantes locais, se tornando um produto altamente rentável. Um forte comerciante local prevendo um ganho rápido e seguro, foi à cavalo até Mato Verde, na época ainda um Distrito de Monte Azul, mas grande produtor de farinha, de boa qualidade e após longa procura e negociações trabalhosas, comprou a produção de diversos pequenos produtores, formando um volume bem grande, que completou uma carga de um caminhão. Alugou um cômodo em Mato Verde e ali depositou, trancado com uma boa fechadura e um possante cadeado, seu precioso produto, em sacas de sessenta quilos, com uma marca bem visível, pintando com tinta preta e muito bem visível,as inciais do seu nome e sobrenome, aguardando com segurança uma oportunidade apropriada de alugar um veículo para a preciosa carga, para o seu comércio em Monte Azul, onde a farinha se tornava mais procurada e consequentemente renderia mais lucro ao comerciante.
Mas aconteceu um imprevisto que o Comerciante não podia sequer ter imaginado. O Comerciante recebeu sua filha mais velha, que por sinal ainda é viva e mora no Centro da cidade de Monte Azul, que chega correndo afobada ao grande cômodo de comércio do pai que muito aflita lhe diz: Pai!!! Chegou aqui em Monte Azul um caminhão carregado de farinha e todos os sacos tem sua marca...Pai!!! A sua farinha está toda num caminhão lá na porta do sobrado do Manda-Chuva...
O velho comerciante, escolado pela vida, sofrido pelas surras da natureza que se chovia demais ou de menos, sempre tinha prejuizos, matreiro por ter rezado muitas orações em intenção dos muitos amigos que estavam no cemitério por se oporem às vontades e ações do Manda-Chuva da cidade!!! Só pediu à filha que retornasse para casa e nada mais falasse com ninguém a respeito, pois iria tomar as providências cabíveis.
No dia seguinte a filha do Comerciante que havia visto e testemunhado tudo, reclamou ao Pai Comerciante: Pai como é que o Senhor deixa por isso mesmo o ato do Manda-Chuva pegando à força a nossa farinha...
O velho Comerciante, diz para a filha: Meu amor, mais valioso que um caminhão de farinha, é a vida... Farinha eu posso trabalhar e comprar, mas a vida, essa minha filha, só dá uma safra e não há dinheiro que compre de volta. Eu perdi a carga de farinha mas estou vivo, aqui ao seu lado.
Ouvi esse caso, há poucos dia, da filha do Comerciante, que atuou no caso, e cá com meus botões voltei meus olhos para esses tempos de justiça e produção bem poucas em todo o interior do Brasil, mas riquíssimo em formas de se manter a vida e nosso Norte de Minas, não fugia à regra.

