sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

O fiofó do gado de Fulgêncio.




Fulgêncio morava na Lagoinha, nos arredores do Rebentão, povoado monteazulense, terra de extremo potencial produtivo, de pouca chuva, é verdade, mas mesmo assim, um terreno que o tempo fez aprender a se virar com a pouca água. Racionando-a para dar substância às plantas que ali teimam em fixar suas raízes. Assim também é o Fulgêncio. Caboclo que inicia seu labor com o aparecimento do sol e conclui com os últimos raios da luz natural. O tempo retirado à força para por no bucho um pouco de alimento para sustentar-se, é tempo considerado perdido, é tempo que bem podia ser utilizado para consertar as cercas, roçar a pastagem, fazer aceiros, buscar água na cacimba e tantas outras atividades essenciais nas múltiplas atividades diárias do sítio...Mas o que que se há de fazer? A natureza faz-se superiora e exige que parte do seu precioso tempo seja gasto com o comer, o beber e as necessidades fisiológicas...Ô tempo perdido Sô!!! Fulgêncio, temeroso e muito religioso não ousava contradizer nada...Mas sempre matutava consigo mesmo: Prá que que pobre quer cu? Só serve para atrapalhar. Se não cagasse, a comida podia durar muito mais tempo dentro do estômago.
No início de agosto, Fulgêncio reuniu sua boiada, composta de dez vacas, um reprodutor , seis bezerros e duas bezerras, todos curraleiros, ditos pé-duros, gado rústico, fruto de gerações e gerações de consanguinidade. Filho cruzava com mãe, neta com avô...o gado definhava em termos de qualidade, mas ganhava resistência... Numa terra onde o mais importante é resistir às intempéries do rigor da natureza. Na visão de Fulgêncio, de pouca escola...aquela dos livros e do professor que ganha do governo para ensinar a ler... nesse conhecimento restrito, as raças melhoradas e aptas à uma produção de qualidade, eram propensas a doenças do gado, tais como a doença do chifre, da mosca, do quarto duro e tantos outros males que dizimam o rebanho e mínguavam os sonhos de Fulgêncio. O gado pé-duro, não!!! É resistente, é forte, é independente...As vacas do Sítio São Fulgêncio, pariam e cuidavam das crias sozinhas, no mato, no ermo, na solidão das noites...E ainda se protegiam a si e as crias, contra os predadores da natureza. È como uma índia que dava a luz e cuidava do filho sozinha...Fulgêncio se babava todo, maravilhado com a natureza, de uma perfeição sem tamanho...Tudo era feito de maneira a se resolver sozinho...Ele só precisa dar uma mãozinha, para tudo se ajeitar e sair nos conformes.
No pequeno curral, a minúscula boiada estremecia o chão, as varas do curral pareciam pestes a desabar com o tremor sem fim, o gado tremia de medo, de impaciência...O clima era tenso e desesperador... O grupo de animais se espremia e girava em num único sentido, como se adivinhassem que Fulgêncio ia vender os seis bezerros e duas vacas, que resumiria o rebanho em onze cabeças, número que comportava o pequeno terreno que lhe fora destinado na partilha feita com a morte do seu pai. O gado inquietava e aguardava o desfecho daquela inesperada reunião.
O sitiante após prender o rebanho, sentou-se no vão da cerca, perto do curral e fazendo um pito, picava o fumo nas mãos ressecadas, trincadas e sujas...Resultado de uma vida de penúria e sofrimentos, mas repleta de orgulho por ser um homem livre.
A espera terminou com a chegada de Ontonho de Orora, comprador de gado que já chegou ao curral, cumprimentou Fulgêncio com um abaixar de rosto, disse algo parecido com bom dia e já se dirigiu ao curral para vistoriar o gado. Balançava a cabeça sempre indicando negatividade e com a boca rija e seca balbuciava palavras que indicavam ter perdido a viagem, com animais daquele tipo...
Fulgêncio já conhecia de cor e salteados todos aqueles grunhidos e movimentos destinados a fazer o sucesso da transação comercial que se iniciava. Todos os anos o espetáculo se repetia. Ontonho era uma raposa esperta e estava no ramo de compra de gado há coisa de trinta anos...Diziam que quando ele nasceu, ao tomar o primeiro leite já ofereceu dinheiro para comprar a vaca que lhe supria a primeira alimentação...Ora isso era conversa das pessoas que não tinham o que fazer...
Ontonho de Orora, após minucioso reparo, sem levantar os olhos, pigarreia, tosse seco oferece a quantia de dois mil reais pelos oito animais...Fulgêncio da mesma forma, de olhar perdido no horizonte diz que está fechado o negócio...Prá que iniciar uma luta com Ontonho...Aquilo era uma autoridade no ramo do gado...Ele é quem sabe o quanto vale o fruto do trabalho do povo...E se ele falou...tá falado!!!
Ontonho enfiou a mão no bolso, sacou um camaço de notas de cem reais e se dirigiu a Fulgêncio para efetuar o pagamento. No ato de estender a mão para o criador de gado, numa fração de segundos, o gado ao ver o dinheiro, avançou na mão do pobre Ontonho e numa agilidade sem par, comeram as vinte cédulas que estavam na mão do comprador de gado... Ontonho não acreditava...Atônito e abestalhado, olhava para os animais que engoliam as cédulas como um prato exótico e obviamente caro...As lágrimas caiam e em prantos o infeliz Ontonho diz para Fulgêncio:
-Fulgêncio, amanhã cedo eu volto para buscar o dinheiro que vai sair na bosta do boi e concluir a compra!
O dono do Sítio São Fulgêncio, responde calmamente: Amanhã não digo, esse gado é de pouco cagar, pois a comida aqui é tão pouca que até já estive pensando pra que que esse gado tem cu. É male male para um peidinho de pouco vento!!!
Mesmo assim, sabendo ter perdido uma fortuna, Ontonho sempre que encontrava Fulgêncio, no mercado municipal de Monte Azul, perguntava:
-O gado já cagou o dinheiro???
Recebendo como resposta um sorriso safado de quem pelo menos uma vez na vida teve o prazer de ver um rico ser punido. E nunca mais Fulgêncio questionou o motivo da existência do cu. Pelo menos o do gado.

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Narciso

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Pretenso criador de um sítio com a história de Monte Azul.

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