sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

O fiofó do gado de Fulgêncio.




Fulgêncio morava na Lagoinha, nos arredores do Rebentão, povoado monteazulense, terra de extremo potencial produtivo, de pouca chuva, é verdade, mas mesmo assim, um terreno que o tempo fez aprender a se virar com a pouca água. Racionando-a para dar substância às plantas que ali teimam em fixar suas raízes. Assim também é o Fulgêncio. Caboclo que inicia seu labor com o aparecimento do sol e conclui com os últimos raios da luz natural. O tempo retirado à força para por no bucho um pouco de alimento para sustentar-se, é tempo considerado perdido, é tempo que bem podia ser utilizado para consertar as cercas, roçar a pastagem, fazer aceiros, buscar água na cacimba e tantas outras atividades essenciais nas múltiplas atividades diárias do sítio...Mas o que que se há de fazer? A natureza faz-se superiora e exige que parte do seu precioso tempo seja gasto com o comer, o beber e as necessidades fisiológicas...Ô tempo perdido Sô!!! Fulgêncio, temeroso e muito religioso não ousava contradizer nada...Mas sempre matutava consigo mesmo: Prá que que pobre quer cu? Só serve para atrapalhar. Se não cagasse, a comida podia durar muito mais tempo dentro do estômago.
No início de agosto, Fulgêncio reuniu sua boiada, composta de dez vacas, um reprodutor , seis bezerros e duas bezerras, todos curraleiros, ditos pé-duros, gado rústico, fruto de gerações e gerações de consanguinidade. Filho cruzava com mãe, neta com avô...o gado definhava em termos de qualidade, mas ganhava resistência... Numa terra onde o mais importante é resistir às intempéries do rigor da natureza. Na visão de Fulgêncio, de pouca escola...aquela dos livros e do professor que ganha do governo para ensinar a ler... nesse conhecimento restrito, as raças melhoradas e aptas à uma produção de qualidade, eram propensas a doenças do gado, tais como a doença do chifre, da mosca, do quarto duro e tantos outros males que dizimam o rebanho e mínguavam os sonhos de Fulgêncio. O gado pé-duro, não!!! É resistente, é forte, é independente...As vacas do Sítio São Fulgêncio, pariam e cuidavam das crias sozinhas, no mato, no ermo, na solidão das noites...E ainda se protegiam a si e as crias, contra os predadores da natureza. È como uma índia que dava a luz e cuidava do filho sozinha...Fulgêncio se babava todo, maravilhado com a natureza, de uma perfeição sem tamanho...Tudo era feito de maneira a se resolver sozinho...Ele só precisa dar uma mãozinha, para tudo se ajeitar e sair nos conformes.
No pequeno curral, a minúscula boiada estremecia o chão, as varas do curral pareciam pestes a desabar com o tremor sem fim, o gado tremia de medo, de impaciência...O clima era tenso e desesperador... O grupo de animais se espremia e girava em num único sentido, como se adivinhassem que Fulgêncio ia vender os seis bezerros e duas vacas, que resumiria o rebanho em onze cabeças, número que comportava o pequeno terreno que lhe fora destinado na partilha feita com a morte do seu pai. O gado inquietava e aguardava o desfecho daquela inesperada reunião.
O sitiante após prender o rebanho, sentou-se no vão da cerca, perto do curral e fazendo um pito, picava o fumo nas mãos ressecadas, trincadas e sujas...Resultado de uma vida de penúria e sofrimentos, mas repleta de orgulho por ser um homem livre.
A espera terminou com a chegada de Ontonho de Orora, comprador de gado que já chegou ao curral, cumprimentou Fulgêncio com um abaixar de rosto, disse algo parecido com bom dia e já se dirigiu ao curral para vistoriar o gado. Balançava a cabeça sempre indicando negatividade e com a boca rija e seca balbuciava palavras que indicavam ter perdido a viagem, com animais daquele tipo...
Fulgêncio já conhecia de cor e salteados todos aqueles grunhidos e movimentos destinados a fazer o sucesso da transação comercial que se iniciava. Todos os anos o espetáculo se repetia. Ontonho era uma raposa esperta e estava no ramo de compra de gado há coisa de trinta anos...Diziam que quando ele nasceu, ao tomar o primeiro leite já ofereceu dinheiro para comprar a vaca que lhe supria a primeira alimentação...Ora isso era conversa das pessoas que não tinham o que fazer...
Ontonho de Orora, após minucioso reparo, sem levantar os olhos, pigarreia, tosse seco oferece a quantia de dois mil reais pelos oito animais...Fulgêncio da mesma forma, de olhar perdido no horizonte diz que está fechado o negócio...Prá que iniciar uma luta com Ontonho...Aquilo era uma autoridade no ramo do gado...Ele é quem sabe o quanto vale o fruto do trabalho do povo...E se ele falou...tá falado!!!
Ontonho enfiou a mão no bolso, sacou um camaço de notas de cem reais e se dirigiu a Fulgêncio para efetuar o pagamento. No ato de estender a mão para o criador de gado, numa fração de segundos, o gado ao ver o dinheiro, avançou na mão do pobre Ontonho e numa agilidade sem par, comeram as vinte cédulas que estavam na mão do comprador de gado... Ontonho não acreditava...Atônito e abestalhado, olhava para os animais que engoliam as cédulas como um prato exótico e obviamente caro...As lágrimas caiam e em prantos o infeliz Ontonho diz para Fulgêncio:
-Fulgêncio, amanhã cedo eu volto para buscar o dinheiro que vai sair na bosta do boi e concluir a compra!
O dono do Sítio São Fulgêncio, responde calmamente: Amanhã não digo, esse gado é de pouco cagar, pois a comida aqui é tão pouca que até já estive pensando pra que que esse gado tem cu. É male male para um peidinho de pouco vento!!!
Mesmo assim, sabendo ter perdido uma fortuna, Ontonho sempre que encontrava Fulgêncio, no mercado municipal de Monte Azul, perguntava:
-O gado já cagou o dinheiro???
Recebendo como resposta um sorriso safado de quem pelo menos uma vez na vida teve o prazer de ver um rico ser punido. E nunca mais Fulgêncio questionou o motivo da existência do cu. Pelo menos o do gado.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Relato de Francisco Teles de Menezes em Montes Claros, 29 de agosto de 1948

Texto publicado originalmente no "Porteirinha em ação" na segunda-feira, 30 de agosto de 2010= Memorial da tragédia de Monte Azul, a partir de 16 de fevereiro de 1946=

Decorridos mais de dois meses de minha estadia com família em Montes Claros, refugiados de Monte Azul, tive conhecimento por um radiograma do Chefe de Polícia ao Delegado Regional desta zona, que foi apresentado pelo cabo Adis Varjão a todos de Monte Azul, Mato Verde e Bonito, aqui refugiados, perseguidos por Levi Silva, para que, os que pretendessem regressar aos seus lares, seriam dadas garantias precisas para a viagem, o que confirmou-nos o Delegado na Delegacia, onde fomos convidados para manifestarmos nosso desejo e ali reunidos, a citada autoridade fez ver-nos que Monte Azul já tinha novo Prefeito e o Major Lourival, delegado especial, para garantia de todos. Como eu estivesse ameaçado de morte, quando retirei-me de Monte Azul, após os funerais do saudoso compadre Antonio de Oliveira Neto, Totó, tragicamente assassinado em Porteirinha a 16 de fevereiro de 1946 pelo jagunço de Levi Silva, o célebre bandido João Açougueiro, não pude ir a fazenda receando emboscada, a fim de dar ordens de serviço ao vaqueiro, resolvi aproveitar ainda da trégua de pacificação ir a Monte Azul com meu filho Helvécio Teles, José Machado Gomes e Mozart Ribeiro, partindo desta cidade a 4 de maio de 1946, chegando ali no mesmo dia, encontrando de fato ali jagunços de Levi em completa paz. Chegando naquela cidade, por um dever social procuramos visitar o Prefeito José Arges e o Major Lourival, Delegado Especial. No dia 7 do citado mês de Maria e ano, por uma denúncia escrita dada ao Major Lourival por Sebastião de Freitas contra Arabel de Souza Gomes, foi este preso em Mato Verde, por ordem do Major e conduzido à cadeia de Monte azul, onde foi recolhido no mesmo dia pelo sargento Oliveira e cabo José Cândido Lima. No dia 10 pela manhã, fui informado que a mulher de Arabel havia ali chegado na noite de 7 e sabendo não estar mais na cadeia o seu marido, fora à casa do Major Lourival perguntá-lo pelo mesmo, o qual respondeu-a que o tinha soltado e como ela parecia duvidar, o Major mandou-a revistar a casa. No dia 11 do mesmo, precisando ver o José Alckmin para arranjar-me seu carro para tomar o trem em Janaúba,
não o encontrando em casa, soube estar o mesmo em casa do Major Lourival, onde fui procurá-lo não o encontrando. Nessa ocasião o Major Lourival relatou-me o que se passava entre ele e a mulher de Arabel, declarando-me que para evitar que o mesmo fosse posto em liberdade por habeas-corpus, que o tirou à noite da cadeia, levando-o para o quartel de sua Força em Pernambuco, de onde precisava retirá-lo para outro ponto porque (sic) um tal Olimpinho parecia-lhe estar espreitando, ora em cima da cerca, ora no quintal do Quartel e que ele (o Major), precisava ainda interrogá-lo, pois que o mesmo havia declarado que já tinha 11 mortes, sendo apenas 2 por sua conta. Nesse momento perguntou-me o Major, se eu podia obter com algum Fazendeiro próximo à Cidade, permissão para transportar o Arabel para tê-lo reservado, a fim de que ele o Major fosse tomar seus depoimentos e em seguida pô-lo em liberdade. Já à noite do citado dia 11, recebi por um camarada de José Alkmim um recado do Major se eu tinha conseguido o fazendeiro
para ficar o Arabel, eu de boa fé, nada suspeitando, ao contrário, procurando fazê-lo bem, de vez que o Major prometeu-me soltá-lo, após suas declarações, pois sempre mantivemos as melhores relações de amizade, éramos compadres, primo de minha senhora e sua mulher sobrinha da minha, lembrei no momento da fazenda de Isidoro Rodrigues, mandando o seu filho Altino a sua fazenda, tendo o Isidoro recusado-se a recebê-lo, alegando falta de cômodo para tê-lo. No dia 12 do mesmo mês, cedo, procurando o Alkmim para arranjar-me o carro que havia chegado de Espinosa, para o meu transporte a Janaúba, encontrei-me com o Major Lourival que perguntou-me pela resposta do fazendeiro, respondi-lhe ser negativa, por falta de cômodo. Então o Major disse-me: (sic) soube que o senhor tem uma fazenda muito próxima à cidade, não pode arranjar-me para guardar o Arabel por poucas horas para ver se descubro mais crimes praticados pelo mesmo? Respondi-lhe que absolutamente não podia, nem devia o fazer, que o Major bem sabia pela leitura de 2 cartas minhas dirigidas a Arabel que ele encontrou em sua algibeira provando nossa amizade íntima, além do parentesco existente entre ele e minha senhora, e que se tal o fizesse seria um traidor, ingrato e teria que suportar as conseqüências de uma vendeta de sua parte. Em vista de minha recusa a sua proposta, respondeu-me o Major áspera e violentamente (sic) dizendo que eu quisesse ou não ele mandaria levar o preso para minha fazenda, respondendo-lhe que se ele assim o fizesse, seria com o meu formal protesto. Julgando que com o meu protesto, o Major refletisse em seu erro e desistisse de sua pretensão arbitrária. Infelizmente assim não aconteceu, porque no dia 13 do mesmo mês, às 7 horas da manhã, recebi um recado do meu vaqueiro João da Cruz por intermédio do meu agregado Davino, o qual mandou-me comunicar que à meia-noite de 12 chegaram na minha fazenda de Olhos d’Água dois militares escoltando o infeliz Arabel e que o entregaram recomendando-o de ordem do Major Lourival, se o preso fugisse, ele, o João da Cruz, pagaria com a vida a sua fuga e que eu mandasse dizer-lhe se o Arabel estava ali preso por minha ordem, que ele estava cansado de vigiá-lo quase toda noite e que o mesmo estava quase solto. Falei ao Davino que dissesse ao João da Cruz, que ele bem sabia que eu nada era e que se entendesse com o Major Lourival que, contra a minha vontade mandam o Arabel para a fazenda. Contrariado com a arbitrariedade do Major e que dizia francamente ter carta-branca, nesse mesmo fatídico dia 13, às 13 horas viajei para Janaúba, onde tomei o trem a 14 para Montes Claros, onde resido desde 28 de fevereiro de 1946. Decorridos poucos dias depois de minha chegada à esta cidade, soube que o Major Lourival tinha regressado de avião da Capital, constando-me também o desaparecimento do infeliz Arabel. Em fins de maio, soube que o Levi passava por aqui de avião com autoridades policiais, com destino a Monte Azul, e que ali chegando, dissera publicamente que o Arabel apareceria vivo ou morto, dirigindo-se no mesmo dia em companhia do Prefeito José Arger, diretamente à minha fazenda de Olhos d’Água e ali em uma cisterna ou poço, encontrariam sem dificuldade o cadáver de Arabel, deixado transparecer claramente que ambos já eram sabedores, antecipadamente do sinistro plano, bem talvez concertado na Capital, com o duplo fim de imobilizar-me e companheiros por motivos políticos, como ainda para tranqüilidade do fratricida Levi Souza e Silva que por vezes dissera-me que protegia o Arabel, receoso de ser assassinado pelo mesmo, o que é notoriamente sabido. Sei de fonte fidedigna que quando chegou o Major Lourival a Monte Azul, com todo aparato bélico: pelotão de combate, metralhadoras, etc. e que tinha carta-branca, o Arabel, receoso de uma surpresa desagradável, telegrafou ao seu patrono em Belo Horizonte, que lá achava-se desde o assassinato de Totó, o célebre Levi, até hoje impune por tão bárbaro assassinato em cujo telegrama Arabel perguntava a Levi se não havia perigo contra ele por parte do Major, respondeu-lhe o Levi que pudesse ficar tranqüilo, que o Major ali estava especialmente para garantia de seus amigos, bem talvez já preparando a cilada contra o mesmo e outros. Ninguém de bom senso e sem paixão que me conhece, não pode conceber que eu, sem nenhum motivo, pois não éramos inimigos, ao contrário sempre mantivemos as melhores relações de amizade como provam minhas cartas dirigidas a Arabel, encontradas pelo Major em seu poder e que devem estar apensadas ao inquérito policial, o que é notoriamente sabido, fosse conivente no bárbaro assassinato do mesmo, e se por um ato de loucura eu concorresse para tal desgraça, que lamentei e sempre lamentarei, por certo não consentiria que pusessem o seu cadáver dentro de minha fazenda, em um poço ou cisterna rasa à beira da rodovia e do caminho que vai à casa da fazenda, onde consta que foi encontrado o cadáver. O meu implacável adversário Levi Silva vendo o seu prestígio político decaindo com sua exoneração de Prefeito de Monte Azul, explorando tal fato, procurou descarregar a responsabilidade criminal sobre meus ombros e de mais nove (9), digo oito (8), meus correligionários, sendo finalmente todos processados, aproveitando a situação de terror ali reinante para conseguirem os depoimentos falsos de testemunhas duvidosas e na ausência dos supostos criminosos Francisco Teles de Menezes e José Machado Gomes que residem nesta cidade. No dia 4 de junho de 1946, data que nunca me esquecerei, referindo completamente aos fatos de Monte Azul, pela manhã fui surpreendido com a chegada a minha residência de uma Sedan com 3 homens, que disseram ser um Dr. Orlando Moretzon, Delegado de Vigilância e 2 investigadores que convidaram-me a ir à Delegacia, tomando a Sedan rumo à Delegacia, ali deixaram-me à espera do Dr. Orlando, que tendo demorado horas, tentamos sair eu e José Machado Gomes, também convidado, porém não podíamos ir em casa almoçar, porque já estávamos detidos por ordem do citado Delegado, que só às 13 horas voltou, convidando-me a prestar meu depoimento sobre o assassinato de Arabel. Achava-me atacado com diversos furúnculos, sendo 2 grandes nas nádegas que impediam-me de ficar sentado muito tempo em cadeira dura e naquela hora (13) começou a perguntar e re-perguntar fatos que eu desconhecia, ameaçando-me de acareação com testemunhas que depuseram em Monte Azul ao talante do nosso perseguidor que revelou logo de início o seu instinto malvado, tudo fazendo para levar-me e mais 8 companheiros de política, como conseguiu, à cadeia, humilhando-nos. Depois de inúmeras perguntas daquela autoridade sobre o caso, às 18 horas deu como encerrado o interrogatório e ao levantar-me para sair, disse-me, satisfatoriamente, que já estava preso preventivamente, mandando-me recolher à cadeia, onde já estavam, sem que eu soubesse, Mozart e José Alkmim, pelo mesmo motivo, vindos de Monte Azul, conduzidos pelo mesmo Delegado. Consta-me que por ocasião do inquérito policial procedido em Monte Azul, presidia-o o Dr. Washigton, Delegado Regional, com completa imparcialidade e independência, ali dados à sua lisura de caráter, como assim não satisfazia aos Morubixabas dali, foi incontinente substituído por outro, creia que o Dr. Orlando é recolhido à Capital, onde chegando deram-lhe passe para seu regresso a Corinto ou Buenópolis, onde tinha família, e lá chegando foi sumariamente dispensado do cargo como penalidade de seu corretismo, não submetendo-se aos caciques daquela infeliz terra. Julgando importante para o nosso caso esse incidente com o Dr. Washington, que tem risos de verdade, acharia conveniente ouvi-lo a respeito, pois ele continua como Delegado, ignorando onde e o seu sobrenome, mas é fácil saber na Chefia. Consta-me que o inquérito policial foi feito em Monte Azul, sob um ambiente de terror sob assistência do cacique e fratricida Levi, que insinuava, subornava, ameaçava como fez com o meu vaqueiro João da Cruz, com promessa de livrá-los, contanto que me acusasse e aos demais, conseguindo afinal o seu intento mefistofélico, contando com o apoio das autoridades de seu credo político. Por duas vezes recorremos ao recurso do habeas-corpus, o primeiro a 4 de junho de 1946, que ficou prejudicado com as férias forenses e o 2º foi interrompido com a designação do sumário e nomeação do Juiz de Direito de Monte Azul Dr. Jamir Moacir de Castro e Silva que aqui chegou acompanhado de outras altas autoridades, sub-Procurador, Delegado civil, 1 oficial, pelotão de combate e 2 investigadores, seguindo eu com os demais acusados presos aqui, escoltados para Monte Azul, nos primeiros dias de agosto de 1946, às 2 horas da madrugada. Antes de relatar o caso do celebre sumário e da famosa sentença, parece inacreditável dizer que antes muito da chegada do Juiz de Direito aqui já sabíamos, antecipadamente, pelos áulicos de Levi, da sentença que seria aplicada a cada uma vítima da torpe calúnia que nos foi assacada pelo celebríssimo Levi e seus asseclas, o que infelizmente fora confirmado. Encerro aqui o meu parêntesis sobre o possuidor da Boceta de Pandora; voltando ao sumario e à sentença relâmpago. Em Monte Azul chegamos à tarde do mesmo dia e no dia seguinte fomos avisados que o sumário seria 3ª feira da semana seguinte, 3 ou 4 dias depois da chegada ali, no dia seguinte novo aviso do Juiz de Direito para domingo às 12 horas e no domingo cedo último aviso do Juiz para as 8 horas da manhã do domingo, a cuja hora comparecemos ao sumário, onde ficamos até as 12 horas, saindo para almoçar, voltando ao sumário às 13 horas até às 17 horas. No dia seguinte, (segunda-feira) voltamos ao sumário às 8 horas, ficando até 12 horas, saindo para o almoço, voltando ao sumário às 13 horas, sendo às 14 horas encerrado o sumário, depois que o Juiz de Direito recebeu um telefonema, ficando diversas testemunhas de defesa que não foram inquiridas o que prejudicou-nos bastante a nossa defesa. Na 3ª feira, ou no dia seguinte, às 15 horas, o Escrivão do Crime acompanhado pelo nosso advogado Dr. Alfredo Coutinho, foram à nossa casa, onde estávamos detidos, e ali emocionados leram em presença de todos os supostos réus a famosa sentença do Juiz de Direito, contra a qual recorreram os nossos advogados Drs. Alfredo Coutinho e Sidonio Pais Ferreira, para o Tribunal de Apelação de Minas: “A responsabilidade do Major Lourival Silveira” – É muito visível e significativo o interesse da irresponsabilidade do Major Lourival Silveira, no caso do assassinato de Arabel, ficando provado o que o mesmo dissera-me que tinha carta-branca para tudo, pois nas investigações policiais que em Monte Azul procederam sobre o caso, as vigorosas autoridades que foram ali, silenciaram sobre sua responsabilidade direta no crime, pois está exuberantemente provado que o Sargento Oliveira José da Rocha e o cabo José Candido de Lima, cumprindo a ordem daquela autoridade levaram o escoltado Arabel para a fazenda de Olhos d’água, de minha propriedade, onde fora assassinado. Por ocasião do aparatoso sumário de culta em Monte Azul, sobre o assassinato de Arabel, ao qual comparecemos, fui avisado para arranjar casa para hospedagem do Major Lourival e um oficial que o acompanharia, que de bom grado consegui, quando no dia do sumário fui surpreendido com a notícia que o Major havia telegrafado ao Juiz de Direito requerendo-o separação do processo e que deixava de comparecer por doente e que pos isso estava hospitalizado. Houve o sumário com a assistência minha de mais 7 denunciados e do Sargento Oliveira José da Rocha e do cabo José Candido de Lima, que também foram condenados, creio que à pena de 22 anos de prisão, os quais estão presos na Capital, no 1º Batalhão. O ano p. passado soube aqui que o mesmo Major Lourival fora de avião a Monte Azul em companhia do Tenente Coronel Altino, por mera formalidade, comparecendo em Juízo, constando-me que antes, o Major Lourival tivera uma demorada conferência a portas fechadas, com Levi Silva, no prédio da Prefeitura, onde funciona o Juiz de Direito da Comarca. Certamente dessa conferência entre ambos, norteia a irresponsabilidade criminal do Major Lourival, no caso em apreço, porque as testemunhas já estavam devidamente preparadas para a negativa, tanto que até hoje, que eu saiba, o Major Lourival não foi sequer pronunciado, pois embora o Levi não ignora o que o Major fez ao seu grande amigo Arabel, prendendo-o, martirizando-o e finalmente consumindo-o tragicamente, só interessa exclusivamente ao Levi que eu e meus companheiros políticos paguemos nos fundos de uma cadeia por um crime cometido por outros, só visando inutilizar-nos para não fazermos concorrência contra a sua nefasta política. A prova testemunhal em Monte Azul, desde que ela subordine-se aos interesses políticos ou pessoais do célebre Levi, não tem nenhum sabor jurídico, pois as testemunhas ali, com raras exceções, para sê-lo agradável e levadas pela timidez e covardia, transigem, mentem e caluniam, como no caso do famoso processo em que estamos envolvidos. – Montes Claros, 29 de agosto de 1948 – Francisco Teles de Menezes.


NOTA DO EDITOR: Divergências verificadas nos aspectos gramaticais e ortográficos, devem-se ao fato de a transcrição do texto ter obedecido criteriosamente o conteúdo original, gentilmente cedido pelo amigo Itajay.

TELEGRAMA DO CORONEL LEVY SILVA PARA O CORONEL MOACIR


Cópia do telegrama de 30 de abril de 1946,do Coronel Levi Souza e Silva para o seu irmão Coronel Moacir Antunes José Silva, por ocasião da intervenção do Governo do Estado de Minas Gerais,Dr.João Tavares Beraldo, Interventor Federal em 1946, com a designação de José Arger para assumir a Prefeitura de Monte Azul em substituição ao Prefeito Levi Souza e Silva, afastado do cargo por acusação de desmandos na região.



U R G E N T E

Cel Moacir,
Monte Azul

Recebi seu telegrama de hoje pt Governo muito contente comigo diante do meu desprendimento renunciando cargo para fazer cessar explorações em torno meu nome e no do Sr. Interventor pt Estou absolutamente prestigiado e projetado para ocupar cargo mais importância na política pt Prefeito nomeado moço distinto recebeu instruções agir inteiro acordo conosco pt Sua nomeação é de carater provisório pt Major Lourival grande fé ofício levou instruções manter ordem e não permitir que nossos inimigos hostilizem nossos amigos pt Portanto fiquem todos tranquilos e reclamem dele tudo quanto for preciso pt Devo dizer que nunca estive tão prestigiado pt Permanecerei na Capital por algum tempo por conveniência minha saúde e nossa política pt Continuarei como Presidente do Diretorio o qual depois de reorganizado poderá telegrafar Sr. Interventor reafirmando a ele inteira solidariedade afirmando que continua comigo pt Mostre este telegrama a todos os nossos amigos enviando cópias a todos os residentes fora da séde.
Abraços
Levi

LEI Nº 3442 - DE 28 DE SETEMBRO DE 1887


LEI Nº 3442 - DE 28 DE SETEMBRO DE 1887.

Crêa districtos de paz, transfere de umas para outras freguezias diversas fazendas, eleva à freguezia differentes districtos e contém a respeito outrs disposições.

O Dr. Luiz Eugenio Horta Barbosa, presidente da Provincia de Minas Geraes: Faço saber a todos os seus habitantes que a Assembléa Legislativa Provincial Decretou e eu Sanccionei a Lei seguinte:


Artigo 1
Parágrafo 9º: As divisas da freguezia de Nossa Senhora da Graça da Boa Vista do Tremedal começarão das cabeceiras do rio "Pajahu" na serra geral, pelo veio d'agua até a embocadura no rio "Rapadura" no logar denominado "Jacoipe"; por este abaixo até a embocadura no rio Paquy, no logar denominado "Tabatinga"; por este até a foz no rio Gorutuba; por este abaixo até a embocadura no rio Verde Grande; por este até a barra no rio Verde Pequeno; por este até a foz do corrego "Poço Triste"; d'ahi por este acima, até suas cabeceiras, em rumo direito a fazenda do "Gado Bravo"; desta ao logar denominado "Urubú"; d'ahi em rumo a Lagoa do Curral Velho, no São Pedro; seguindo em direcção ao morro do Pau d'Arco; deste aos Buracos, fazenda de Placido Cardoso, e d'ahi a barra do rio "Lameirão"; por este acima até suas cabeceiras; d'ahi em rumo direito ao corrego denominado "Gallinha" e das cabeceiras deste ao primeiro ponto, na serra geral.

Art. 2º Ficão revogadas as disposições em contrario.
Mando, portanto, a todas as Autoridades a quem o conhecimento, e execução da referida Lei pertencer, que a cumpram e façam cumprir tão inteiramente como nella se contém.
O Secretario desta Provincia a faça imprimir, publicar e correr. Dada no Palacio da Presidencia da Provincia de Minas Gerais aos vinte e oito dias do mez de setembro do Anno de Nascimento de Nosso Senhor Jezuz Christo de mil oitocentos e oitenta e sete, sexagesimo sexto da Independencia e do Imperio.
LUIZ EUGENIO HORTA BARBOSA
Sellada e publicada nesta secretaria aos 8 de outubro de 1887.
Servindo de secretario,
Pedro Queiroga Martins Pereira.
Fonte: Livro de Leis Mineiras Tomo LIV Parte 1ª Páginas 255 a 262.
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terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Carta do Coronel Levy em 02 de janeiro de 1947





O Coronel Levy sempre mantinha estreito contato por escrito, com os seus correligionários. A carta acima se refere ao seu apoio ao candidato a Governador de Minas Gerais, JOSE FRANCISCO BIAS FORTES, em 1947, quando foi derrotado por Milton Campos.

José Francisco Bias Fortes, nasceu em Barbacena(MG) aos 3 de abril de 1891 — E faleceu no Rio de Janeiro aos 30 de março de 1971. Foi prefeito de Barbacena, entre 1937 e 1945.
O resultado da eleição, na época foi: Milton Soares Campos (UDN), eleito com 448.073 votos e José Francisco Bias Fortes(PSD) derrotado com 388.207 votos.

Narciso

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Pretenso criador de um sítio com a história de Monte Azul.

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